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Profecias bíblicas: alegóricas ou literais?

Atualizado: 10 de ago. de 2025

Parte do texto foi escrito com base no livro de J. Dwight Pentecost, registrado nas referências.


No estudo da Escatologia, há dois métodos principais de interpretação das Escrituras proféticas. É necessário optar pela interpretação alegórica ou pela literal. Porém, é preciso entender cada um dos métodos para, então, compará-los e optar por um caminho a seguir.

As interpretações alegórica e literal diferem-se na maneira como afirmam que as profecias bíblicas devem ser compreendidas. O método alegórico busca um sentido mais profundo e espiritual dos textos. Para quem segue essa linha, as profecias têm um sentido além do simples significado das palavras. Por exemplo, em Isaías 11:6-8, se diz que haverá paz entre os animais, o leão comerá palha como o boi e a criança de peito brincará na toca da áspide. Um alegorista poderia dizer que o texto é uma referência à igreja e que a convivência pacífica entre os animais representa a presença de pessoas com diferentes culturas.

As alegorias podem ser puras ou mistas. Um exemplo de alegoria pura é a história do filho pródigo (Lc 15:11-32). Ali, não há uma explicação direta sobre o significado e aplicação da história. Um caso diferente é o do Salmo 80, no qual Asafe, apesar de não dizer explicitamente, deixa muito perceptível que se refere aos judeus como uma videira. Nesse caso, a alegoria é mista.

Há alguns perigos quando se escolhe o caminho da interpretação alegórica. O primeiro deles é que esse método valoriza o entendimento subjetivo do leitor em detrimento da revelação divina. Em última análise, acaba por eliminar a autoridade bíblica, pois prioriza interpretações individuais, o que leva a mais um perigo, que é a falta de um parâmetro estabelecido para se comprovar a veracidade das interpretações. Quando se elimina o significado real das palavras e praticamente tudo se torna alegórico, não há um padrão para que seja possível verificar se o intérprete está correto. Tudo isso leva ao terceiro perigo, que é o distanciamento em relação ao verdadeiro sentido dos textos.

Qualquer corrente de pensamento cristão ou método de interpretação da Bíblia precisa basear-se nas Escrituras. Um texto muito utilizado por alegoristas para fundamentar sua linha de raciocínio é o do quarto capítulo de Gálatas, quando Paulo refere-se à compreensão de um episódio do Antigo Testamento como alegoria. Ele diz que Ismael, filho de Agar, nasceu segundo a carne, enquanto Isaque, filho de Sara, nasceu segundo o Espírito. Explicando os dois concertos – um, referente a Agar, que gera filhos para a servidão, e outro, referente a Sara, que gera filhos da promessa -, Paulo exorta os gálatas a viverem segundo a graça, não mais debaixo da Lei (Gl 4:21-31).

Se os alegoristas procuram um sentido subjetivo nas Escrituras proféticas, os literalistas preferem interpretá-las segundo o significado real das palavras. Por isso, o método literalista também é chamado de histórico-gramatical. No texto exemplificado anteriormente, de Isaías 11:6-8, a interpretação é completamente distinta das que são apresentadas pelos alegoristas. Se o texto diz que haverá um tempo em que existirá paz entre os animais, o leão comerá palha como o boi e a criança de peito brincará na toca da áspide, é porque isso acontecerá da maneira como está escrito.

Um forte argumento para a defesa da interpretação literal é que as profecias do Antigo Testamento, citadas no Novo como cumpridas, se passaram literalmente. O mesmo acontece com profecias cumpridas, até mesmo, após o fechamento do cânon bíblico. Um dos principais exemplos é o da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém (Mt 21:1-11;Mc 11:1-10;Lc 19:29-38;Jo 12:12-19). Naquele momento, muitas profecias cumpriram-se literalmente, como a do profeta Zacarias: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu rei virá a ti, justo e Salvador, pobre e montado sobre um jumento, sobre um asninho, filho de jumenta” (Zc 9:9).

Um outro exemplo de profecia cumprida literalmente, dessa vez após o fechamento do cânon, é o retorno dos judeus à sua terra após a dispersão, assim como foi predito por Isaías: “Quem são estes que vêm voando como nuvens e como pombas, às suas janelas? Certamente, as ilhas me aguardarão, e, primeiro, os navios de Társis, para trazer teus filhos de longe” (Is 60:8-9a). Note-se que Isaías descreve “estes que vêm voando”, sendo que ele viveu cerca de 2600 anos antes do primeiro voo de um avião.

As interpretações que são baseadas no método literalista podem ser verificadas mais facilmente. Isso porque, se as Escrituras proféticas são literais, é forçoso que haja coerência entre elas. Uma profecia bíblica não pode ser literal se entrar em conflito com outra profecia bíblica. Essa constatação é extremamente favorável ao ponto de vista de quem adota esse método, pois todas as profecias bíblicas são coerentes entre si quando a interpretação é literal. Inclusive, esse método, que tem base firme para a verificação, leva a crer que, após o arrebatamento literal da igreja e os sete anos literais de tribulação literal, Jesus voltará à terra literalmente e estabelecerá um Reino literal de mil anos literais, Reino esse que se estenderá por toda a eternidade, depois que os céus, literalmente, se desfizerem em fogo (2Pe 3:12) e a nova Jerusalém descer, literalmente (Ap 21:2).

Algumas objeções podem ser levantadas ao método literal. A seguir, serão apresentadas, resumidamente, três possíveis objeções e respectivas respostas. Primeiro, alguém poderia alegar que a Bíblia contém figuras de linguagem, o que apontaria para uma interpretação alegórica. No entanto, as figuras de linguagem ensinam verdades literais. O sentido metafórico tem seu espaço na interpretação histórico-gramatical e, nos textos bíblicos, costumam ter o seu significado muito claro. Quando Jesus é apresentado como Cordeiro de Deus (Jo 1:9), está claro que Jesus é quem fora enviado por Deus para morrer como sacrifício pelos pecados de todo o mundo (1Jo 2:2).

Uma segunda possível objeção é que o grande tema da Bíblia é Deus e Seus atos redentores para com a humanidade, e Deus é Espírito (Jo 4:24). Portanto, as revelações seriam espirituais. Aqui, é importante frisar que “espiritual” é diferente de “espiritualista”. Na Bíblia, Deus se comunica com o homem claramente, não espiritualizando, por mais que transmita ensinamentos espirituais por meio da verdade literal. Por exemplo, Deus é muito claro com Abrão quando lhe ordena que saia de sua parentela em direção a uma terra que Ele mesmo lhe mostraria (Gn 12:1).

Por último, poderia ser dito que o Novo Testamento apresenta narrativas do Antigo como tipos. Isso é verdade, porém a apresentação de narrativas como tipos não nega sua verdade literal. Os concertos referentes a Agar e Sara são um exemplo disso. Quando Paulo cita e explica a alegoria presente na compreensão da narrativa veterotestamentária, em momento algum nega que a história seja real. Não há dúvidas de que Abraão teve um filho com a escrava Agar (Gn 16:15) e outro com a livre (Gn 21:2) e que Abraão ordenou que se lançassem fora Agar e seu filho porque ele não herdaria com Isaque (Gn 21:10).

Há quem se refira aos dois principais métodos de interpretação das Escrituras proféticas como uma oposição entre “literal” e “espiritual”. Essa distinção, no entanto, não parece correta, pois “literal” e “espiritual” não são antônimos. Os literalistas não negam a presença de linguagem figurada e símbolos nas profecias; apenas defendem a interpretação segundo o uso normal da Linguagem – segundo as normas.

Definir qual linha interpretativa seguir determina todo o estudo da Escatologia. Para citar alguns exemplos, essa escolha afeta o que se crê em relação ao período de tribulação sobre a terra. Os que seguem uma linha alegórica costumam ser pós-tribulacionistas, afirmando que a igreja passará pela tribulação, como é o caso dos historicistas, idealistas e preteristas, sendo que os do último grupo creem que a tribulação já aconteceu. Já os que preferem a linha literalista, afirmam que a igreja não passará por esse período (1Ts 1:10), se encaixando, aqui, muitos futuristas.

Quanto ao Milênio (Ap 20:1-6), os alegoristas tendem a ser pós-milenistas (os mil anos seriam simbólicos) ou amilenistas (os mil anos simbolizariam o período da igreja). Já os literalistas, tendem a ser pré-milenistas (Satanás será preso por mil anos e, nesse período, os santos serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com Ele, como garante Apocalipse 20:6).

Considerando-se tudo o que envolve os principais métodos de interpretação das Escrituras proféticas, parece mais razoável seguir com a linha literalista. Assim, a imaginação humana não ocupa o lugar da revelação divina. Aquilo que foi revelado por Deus o foi de maneira que possa ser compreendido, o que é possível quando as palavras são entendidas em seu significado real.


Referências bibliográficas:

A Bíblia Sagrada. Tradução: DE ALMEIDA, João Ferreira. Revista e Corrigida (ARC). 4. ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.

 

PENTECOST, John Dwight. Manual de Escatologia – Uma análise detalhada dos eventos futuros. Trad. Carlos Osvaldo Cardoso Pinto. Digitalizado por Sandra. São Paulo: Vida, 2006.

 
 
 

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